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20 de junho de 2012

Corvo

Que outro senão este vosso amigo
Para cair enamorado de um Corvo
Que idolatra as coisas brilhantes
E a força bruta da pequenez
Ao invés do brilhantismo das
Pequenas coisas que trago ao peito?
Tolo da raça maior sou eu
Que me deito com o mesmo erro
Infindas vezes na mesma noite
Só para nunca saber a que sabe
Um torrão de rocha da Lua
Quem mais senão este corpo
Para gostar desse crocitar
Assustado e assustador?
A alcateia não pára por ardores
Ou tumefações infundadas
Mas um dia quebraremos passo
Para te colher a plumagem
E te pousar a meu ombro
Pequeno Corvo

6 de fevereiro de 2012

Dias

Há dias que quero separar-me dos meus olhos
Desligar-me das mãos e deixar de ouvir
Há dias em que quero arrancar a virilidade
E dias em que mais valia engolir a língua
Pois nada me vale para ser corajoso
Ou bravo o suficiente para rasgar amor
Do tecido da fragilidade feminina
Se não te doem os poemas
Que cobardemente te insinuo
Não tenho forma alguma de te mostrar
O pequeno ser que habita esta grande tenda de circo
Que eu maquilho com laivos de malvadez
Desejo por dias a fim que me venhas ver
Aqui sentado, diminuto e a tremer
Que me beijes e digas que de mim precisas
E vês-me crescer, a abraçar-te e por ti morrer
Mas até lá brinco com palavras
Com desejos e com estúpidas inseguranças
Que me separam dos olhos,
Que me desligam das mãos e me fazem deixar de ouvir
Que me arrancam a virilidade
E que me engolem a língua
Sou um homem apaixonado pelo seu próprio medo
Um escombro do apogeu de um amante
A quem Deus não escuta e os anjos renegaram
Que seu grande pecado foi não dar graças
Pela loucura servida a ferros num prato de drogas
E que o amor desdenha da minha existência
Se um dia me perceberes, peço-te que mo digas
Que me arranques lágrimas da cara porque
Há dias em que sei que aquilo que sinto
Não cabe no espectro de mais ninguém
E há dias em que estou farto de viver assim

5 de janeiro de 2012

Terras Baldias

O que é a minha vida senão
A mais contínua repetição
Do erro de não me saber
Encontrar, de não querer
Assentar mas de o desejar
De simplesmente ignorar
Quem sou por quem és
De jurar com força a pés
Juntos que solução és tu
Com que força me mordo
Com raiva que me transbordo
Para conseguir rasgar um sorriso
Desta ridícula posição friso
Que nunca serei eu
A quem chamarás de teu
Abraço isto como a espinhos
De sentimentos fazes brinquedinhos
E até ao final dos meus dias
Dentro de mim, terras baldias

3 de outubro de 2011

Capitão Morte

Escrevo-te em tormentas eléctricas
Porque te fermentas em mim
Como um abrasão na pele

Se tu, gentil, te chegasses
E eu dissesse que te necessito
Como respiro fumo e alcatrão

És a maré que preciso
Mas que não vou apanhar
Rochedo, sou

Carburaremos os dois
Nas fornalhas que fizemos
Nunca tristes, nunca alegres

És a dor que se me dá aos ossos
Cancro que se me alastra
Vasilha de beleza ruim

Lambes a maresia da testa
Ninfa de psique amorfa
Petrolífera e amarga

Vem-te em ondas de gasolina
E suspira ventanias
Que quero atolar o barco

Atar-te-ei à proa
Para sempre, para todo o sempre
Deste teu, Capitão Morte

27 de setembro de 2011

Casamento

Quero partir-te os joelhos
Para que não mais fujas do lar
Cortar um dos teus dedos e
Levá-lo comigo a todo o lado
Fazer um reluzente cinzeiro
De uma das tuas mãos
Agrafar-te os lábios em posição
De um eterno beijinho
Arrancar-te a pele e mandar
Emoldurar a dourado
Roer-te as orelhas para que
Nunca me deixes de ouvir

Quero que tomes chá comigo
Principescamente sentada
Numa cadeira de rodas
Empurrar-te-ei pelas melhores lojas
Quero os teus dentes
Como munição de arma secular
Para disparar contra os teus sonhos

Se pudesse devorar todos os teus sentidos, fá-lo-ia
Se quisesse mascarar todos os teus defeitos, fá-lo-ia
Mas quero-te consumir crua
Comer a besta que és

É contigo que quero casar

24 de agosto de 2011

Brilhantina


Cabelo reluzente de brilhantina
Liberto-me casa com um andar
Como se o cérebro estivesse a segregar
Um ácido com demasiada estricnina

Todo eu sou estranheza
Mas um tipo de defeito vulgar
Dando de caras com uma pobreza
De vontades, de gostos e de amar

Escondido por baixo do pompadour
Murmurando a chanson du jour
Espreito através dos óculos
Mandando às meninas ósculos

Faço-o por falta de latim
Ou para ser uma bizarra peça
Que vontade de falar não há em mim
Quando realmente me interessa

Pavoneio uma falsa confiança
Talvez pelo facto de usar laca
Ou por ter a esperança
De me poder defender à faca

E lidar com as mudanças de humor
Desta condição de bipolar by proxy
Experimento ser eu com ardor
Mas mando tiradas como “God, you’re foxy”

Cliché, meu bem, nada mais
Não há em mim um pedaço original
Caio na sarjeta com os demais
Os meio-artistas deste mundo animal

Não me olhes em desdém
O meu final dramático já ali vem
Hei-de arder em burrice
E nada de funerais, já disse

7 de agosto de 2011

Saudades de quem não tenho

Saudades de quem não tenho
Ninguém me diz coisa nenhuma
Saudades de quem não tenho
Não há em mim palavra saudade
Saudades de quem não tenho
Tenho, teria outrora saudades
Saudades de quem não tenho
Em muitos amores saldadas
Saudades de quem não tenho
São coisas de um passado
Saudades de quem não tenho
De alguém que me afoga em
Saudades de quem não tenho
Sinto falta de te ter minha
Saudades de quem não tenho
Queria ter quem não se me dá
Saudades de quem não tenho
Todo eu sou saudades por
Saudades de quem não tenho

Lágrimas Sonoras