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P'rá Inês


29 de Novembro de 2009

Funeral Meu

A madrugada nasce vermelha
Apodrecida em vergonha
Envolta em lençóis brancos

Veio para saudar a minha embriaguez
Cantar a minha grave cegueira
Abraçar a minha humana estupidez

Sinto-te em falta, longe e escura
Como um lago lânguido e frio
Onde, descalço, me afundo

Qual dos meus gestos
Foi a estaca final, o ponto
Qual de minhas frases ficou
Por não-dita, ou maldita

Foi o erguer de mais um copo
O estalar de outra rolha
Ou o perfume dum licor
Que te ditou o caminho?

Ou fui simplesmente eu
Que não vi a estrada
Abrandei e morri, de medo
Por medo, matei-me
E tu não vais carregar o meu cadáver
Eu sei, eu compreendo

Dá-me somente um funeral digno

21 de Novembro de 2009

Estupro

Este é o último dia da minha vida
Poiso levemente o pensamento
Na pura brisa de um vendaval
Agarro o trovão que se solta
E busco a quieta corrupção
Pestanejo furiosa e religiosamente

A criança que jaz dormindo
Não sonha além do oceano
Perece com um suspiro
Enquanto se abraça à almofada
Olhos acordados em violência
Trincando a pequena realidade

Nós somos trinta e oito
Vozes de um coro infernal
Neste tão corrompido coito
Cantamos cantigas de embalos
Forçados e malditos corolários
Da tua profunda beleza

Gritas por um Deus que te acuda
E à força das tuas palavras
Sucumbe toda uma aparência
Uma femme fatale quebrada
Flor tremida de cor espalhada
Por um cenário trágico e ruim

12 de Novembro de 2009

A Bailarina e o Poeta...

Gostava de me encontrar na rua
Assim, por mero acaso
Passear e ver-me lá ao fundo
Dizer adeus a mim próprio
E ver o meu andar, o meu porte
Quebradiço e minuto

Poder trocar umas ideias
Reclamar da vida
Comigo, com ele

Cheirar o cansaço
Do pedestre que sou

Gostava de me cruzar contigo
Minha pequena bailarina
De te dizer onde me vi
Onde estava e sorria
Observar o teu bailar
Gracioso e grandioso

Dançar na calçada
Rir do absoluto nada
Contigo, contigo

E beijar-te novamente,
Minha doce Inês…

9 de Novembro de 2009

S & M

Porquê que tens só essas botas
Que te agarram até às coxas
E há uma música de 8-bits no ar?
O q-que pensas fazer com esse chicote?

Deixa-me, não quero cera no corpo
Não me lambas as tatuagens
A dor das tuas unhas... Mmm...

Enfureceste-me... Agora...
SOU EU!!!
Deixo de estar maniatado
E também consigo arranhar...

E morder...

Torturar...

Fazer-te implorar...

Armado com um robot
Mostro-te os limiares da noite

Como uma agulha perdida num vinil

Rio-me com as tuas feições...
Até as tuas cordas vocais desistirem

Novembro

Céus revoltos em coros de guerra
Chuva de cabos pelas paredes


Novembro

Arbeit macht frei
E no entanto...          Tenho garras cravadas na face

Rio para dentro    
Para o bolso, para as notas
Dos chapéus das ligas dos soutiens

As crianças que me irritam mas que                       são o melhor do mundo
Têm caras perfeitas, coitadas
Coitado do puto que não sabe onde vai florescer


Rebento um olho com uma caneta BIC
Dou-o de comer a um podengo

Filho da puta do rafeiro
Comeu-me a vista
Abençoado sabujo mostrou-me a vida

Liebe ist für alle da
Mas só consigo sabotar-me       com artimanhas
Que nem meu inimigo conseguiria planear

E tudo o que vejo é tão belo
E tão nauseante, meu d(eu)s

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
....escrevi um grito...
Mas não tem alma, raios me partam      que não fiz nada

Meu belo Novembro


Este Rasgo de Loucura

Que pessoa sou eu
Não me consigo pôr de pé
Nem me olho ao espelho

Enterro a face nas mãos
Afogo-me em pranto
Rasgo da voz o canto

Esta pele de mármore
Este olhos vazios
Este rasgo de loucura

Não sou eu
Esvaio-me de força
Envergonho-me deste ser

Choro para a lua
Uivo à minha alma
Esquadrinho a consciência

Não me encontro
Não me encontro
Não me encontro

Tenho sangue nos lábios
Sujas as minhas mãos
Deste rasgo de loucura

Respostas para mim
Não as possuo
Sei que as tens

Mostra-me a mim
Devolve-me a minha casca
Sacia a minha sede

Tenho medo da noite
Desta noite que parece
Durar uma eternidade

Porque à noite estou sozinho
Estou comigo, só comigo
Com esta pessoa

Esta pessoa, este animal
Que balança inseguro
Neste rasgo de loucura

25 de Outubro de 2009

Beijo

Perdi a boca, perdi os beijos
Fui roubado do amor
Desnudo por medo à espada
Mortos aliados p’la sombra
Criei escudo, clamei brasão
Por ósculos teus, meus
Caminhei dédalos pessoais
Fiz o sinal da cruz na fronte
Para furtar doces lábios
Deus não me escutou
E perdi o sentido
Larguei juras nas vielas
Amei os cantos escuros
Sons do passado que perdoei
Nas janelas escurecidas
Rasgo-me em desejos
Feitos à lua, em vão
Sonhos de lábios
Deitados à rua

Tempestade

Hexagonais contemplo os rostos das bestas
                Os demónios, capetas, inomináveis
Mobiliário de palácios quiçá psico-sexuais



Serpentário de Colecção de cruzeiro
Vozeirão de bídon, copo de vinho          rubro diamante
Domínio dos mudos, dos tontos
Silêncio

Mascas na tua ignorância,                                          de mentol
Frescura velha de contornos esbranquiçados

Gasto p’lo odor a humanidade, tenho
Sede de álcool que derramas na              escadaria
Pranto das gotículas que a gravidade
Reclama

Armadilhas de droga e luxúria
 Em melodia morta         pelo tempo, por ti

Trovejo em mim, irrompo
Na pele da mulher                                         no pêlo do animal

Ah, uma dança de esfregona

Poesia em moção decadente    oxalá termine
Arde-me na pele a sapiência

Tatuagem perdida à flor
Turbilhão inventado      por um electricista
Que baila ao contratempos
Da caneta

24 de Outubro de 2009

O Delírio do Poeta

Vai longo o delírio do poeta
Deitado num leito de violetas
A sonhar da dor que traz no peito
Embalado, profundo pelo frio luar

Traz na alma a amargura
Das ruas da Baixa de Lisboa
Conhece os passos à calçada
Os loucos, sabe-os p’lo nome

Faz da chuva lágrimas suas
E da multidão amigos
Mas o sofrer dorme com ele
Perfumado pelas flores

Cansado de ver sozinho
Abraça seus segredos
Rejubila no dedilhar
Da guitarra que geme

Tem voz de vento
E grunhido do povo
Temente a Deus
Amante dos génios

Pobre poeta do fado
Amarrado àquilo que sente
Chora por não saber
Por pecar em silêncio
FARTO!

Farto de vós, farto de tudo isto
Tenho p’los cabelos a vida medíocre
A gentalha tresanda a imensurável
Idiotia, apatia e antipatia

Farto de quem me ama, ou diz
Que se merece andar por aí
Farto das vozes maldosas
E dos seus problemas sexuais

Talvez deixar de falar,
Pousar a caneta e lutar
Contra este rio de merda
Que são meus irmãos

Ranger os dentes àqueles
Que perdem tempo a atacar
Deixar de pensar na injustiça
Começar a ser eu a espalhá-la
Injuriar a torto e a direito

Segregação e indiferença
Mereceis vós, pútridos
Ou um simples tiro na testa

19 de Outubro de 2009

Estrada

Tenho saudades de mim
Do tempo em que a estrada
Era uma promessa, uma amante
E o mundo estava de costas voltadas
Ao invés de olhos colados à minha nuca

Penso enquanto ponho a mudança
Mais alta que o meu corcel de ferro
Tem pulmões para aguentar…

Esgares soltam-se na minha face
O fumo do meu negro cigarro
Dança com os meus músculos
O meu carro ruge pelas ruas
Dando voz à minha vontade voraz
De devorar a multidão cinzenta

Sinto-me a escoar pelo alcatrão
E temo a altura em que me deitarei
Fechar os olhos e reviver
Todo o pesadelo que vivi
Conduzo
Bebo
Esqueço

Ah que vontade de amar a estrada
De me deitar com este motor
De me destruir no asfalto
Fugir de mim mesmo
Respirar a gasolina que não queimou

Farto de todos estes clichés
Possuído pelo passado
Sem esperança de futuro
Bastardo de Deus e das gentes
Sem revólver e vontade

Enquanto o motor geme
Fecho os olhos sem pensar
Para não mais o fazer
O lamento cresce e torna-se
No último choro da minha vida

15 de Outubro de 2009

Cadeados

Se as portas de minha casa
Não se abrissem mais
Faria tão pouca diferença
Tão pouco desassossego

Cadeados do meu ser
Correntes na minha essência
Coisas expectáveis e úteis
Que me permito usar

Restrinjo-me a isto
Por isso, sou causa de nada
De pouco barulho, de menos orgulho

Se pudesse, ao menos escrever um grito
Agitar as páginas dos jornais
Abrir os olhos ao mundo
E livrar-me das mordaças
E toda a gente comigo
Se pudesse, ao menos escrever um grito

Liberdade liberta
Que me canso de roer a trela
Alforria pela certa
Que já me sangram a goela

Corpos esgazeados p’la beleza
Clamem até que a voz seja carmesim
Abram as portas de vossas casas,
Criem uma corrente de ar
Ar puro e sadio e de mudança

Não quero nada mais senão escrever um grito

13 de Outubro de 2009

Laços

Partem-se devagar
Ligações de amor
De anos incontáveis
Espadas de outrora
Queimam-se canções
Para serem solilóquios

Rasgam-se cartas
Juras de paixão
De eras douradas
Copas carmesins
Cantam-se emoções
Para serem egoísmos

Fazem-se novos
Contratos de querença
De vida infindável
Ouros imortais
Prometem-se mundos
Para serem novos

Deste ser Português....

Inato sentimento cresceu em mim
Dor, saudade e melancolia
Remendo da minha alma
Sem que nada fosse dito
Sem que o espírito fosse lavrado

Palavras dedilhadas de uma guitarra
Que embatem p’las paredes de uma tasca
Uma cultura que revolve no escorrer da bica
Muda fala a minha casa, p’lo ranger da mobília
Conta os cantos que bati e as lágrimas que cantei

Com o meu olhar cego de poeta de café
E meu trejeito de artista sem fado cantado
Te digo, que tudo isto em mim é português
Pois esta tristeza foi Deus que ma deu
E tamanha paixão só caí como orvalho

Na minha voz não caí arte,
Da minha vida não sai morte
Mas pelas minhas palavras, meu amigo
Espero que sofras p’lo menos metade
Daquilo que, cantando, eu sofri

Lusos sentidos e sofridos
Rogamos a Deus que o pranto
Que orgulhamos no rosto
Nos faça tão bem como um licor

E por findo, te confesso meu desejo
Quando me juntar a Nosso Senhor
Espalha as minhas cinzas pelos mares
Que quero tocar Portugal, beijar as costas
Desta moça, deste grande amor

Saudade, para sempre saudade…

11 de Outubro de 2009

Tosse

Tenho uma tosse
Sintoma do tempo
Que me deixa frágil

Sinto-me a romper
A cútis prestes a quebrar
No bater ribombante da tosse

Estou que nem uma criança
Débil e prostrada
Tudo à conta da tosse

Estou velho e tusso
Doente e quebradiço
Arfando pela vida

Acendo mais um cigarro

25 de Setembro de 2009

Díluido

Sinto os meus pensamentos
A absorverem-me lenta
E cruelmente, assim como
Uma nuvem metálica
Rouba o sol do céu

Furtam-me a razão
E moldam-me o humor

Eles falam em coro
Gritam em uníssono
Diluem-me

Estes deuses, estas mentes
Querem algo de mim
Uma acção ou uma palavra
Que luto para refrear

Eles dançam em sintonia
Eles troçam em histeria
Diluem-me

O meu crânio, uma cela
P’ra prisioneiros que
Já nem estou certo que gerei

Rebentos de outrem
De outros que não eu
Tentam dominar-me

Como lutar? Como recusar?

Estou ou sou ou serei
Díluido

24 de Setembro de 2009

Soldado Anarca

Pelo que marchas tu, soldado anarca?

Por que ideais, sonhos ou enredos
Te dizes tu animal sem lei
Pária duma sociedade dormente

Se não sabes, pára de marchar
Se soubesses porque lutas
Eras sim, um Humano

Se queres saber, pensa
Marginal duma raça aspirante
Se queres que to diga,
Digo-te porque marcho eu

Move-me a igualdade,
O bom senso e o respeito
O amor pelo meu irmão
A esperança de um futuro
Sem crimes e criminosos
Sem mentiras e sem enganos
Uma humanidade melhor
Onde ninguém diz a ninguém
Aquilo que o outro tem que fazer
Simplesmente porque todos nós
O saberemos…

Assim como não te direi como marchar
Meu lindo soldado anarca
Contei-te pelo que espero
Conta-me tu pelo que marchas

22 de Setembro de 2009

Anjo Guerreiro

Quebra o meu semblante
Anjo Guerreiro

Trespassa-me a fronte
Queima-me a pele
Rasga-me o sorriso

Levas-me o coração
Anjo Guerreiro

Tiras-me as pernas
Roubas-me os braços

Anjo Guerreiro

Mas afinal não tenho dor, não me falta nada
Afinal o mundo é futuro

E os fantasmas dos reflexos das tuas ilusões
Pairam sobre um ser descontentado e contente
E esse ser que sou eu adeja pela água

Anjo Guerreiro

E daremos novamente as mãos

20 de Setembro de 2009

As Verdadeiras Viagens do Vazio

No tempo em que as perguntas existiam
O Vazio estava nas respostas por dar
E por pouco, ele habitava no silêncio

No tempo em que as pessoas perguntavam
O Vazio era menos que um suspiro
E ele suspirava mais que nós

Deixem que vos diga que
O Vazio, viveu em toda a parte
Nas entranhas de todos os Fernandos
E nas palavras de todas as Amálias

Mas o Vazio não ficava em parte alguma

Saltimbanco de natureza
O Vazio partia em longas viagens
Que duravam gerações

Entre tempos que mudam, o Vazio
Vive em todos os humanos
E arreganha os dentes
De tamanho contentamento

O Vazio saiu debaixo das pedras
Da Calçada e emergiu do Tejo
O Vazio correu o Rossio
E subiu o Chiado

E agora, o Vazio enche as narinas
O Vazio esboça os nossos sorrisos
E ele mesmo, nos empurra
Para as nossas obrigações

Mas amanhã, meu irmão
O Vazio vai morrer
Vamos cavar-lhe a campa
E lavar as mãos enlameadas
E bramir aos Céus

O Vazio vai morrer
E iremos novamente correr
Livres pelas ruas de Lisboa

Vamos ver as gentes
Cheias de contentamento
De alegria, música e amor
Tudo porque amanhã
O Vazio vai morrer

12 de Setembro de 2009

Armagedão

Eis-nos a sentir a respiração dos cavaleiros
Nos nossos pescoços nus e doridos.
Abrimos os olhos e vemos vazio
Enquanto o resto do mundo
Vê beleza em cadáveres vivos

Uma enxaqueca colectiva,
Partilhamos nós que sabemos
Que as nossas órbitas nada contêm.
Os nossos punhos fecham-se
Em profundo desespero pelos outros

A inércia que nos condena
A ser meros espectadores
Enquanto caminhamos para o fim
Atormenta-nos como grilhões
Que rasgam a nossa pele

Lutamos para despertar
Gritamos e choramos
Mas apenas afundamos
Só nós nos queremos salvar
Do profundo abraço do Apocalipse

Triste é a esta nossa sina
Porque podemos contemplar
Que as asas de outrora
São agora desgraçadas memórias

Nada podemos esperar, meus caros
Artistas, irmãos e irmãs
O nosso Messias não chegou
Pereceremos sapientes,
Maldição de Deus

Amo-vos a todos

2 de Julho de 2009

Pai Sol, Mãe Terra

Os Elohim cantam mais alto hoje
Queimando-me com a sua melodia
Arrancando ao meu corno que foge
Este Animal que me mataria

Mas nasci imundo

Criei raízes no sangue da besta
Limpei a concha da terra
Fechei infelizmente a testa
E eu não voltei à serra

Renasci para o mundo

Sinto os meus pensamentos
A realidade fechada na gruta
Não mais será meus tormentos
Mas minha verdade absoluta

Serei eu unificado

A irmandade me guiou
De túmulos me arrancou
Os quais a sociedade escavou

Amarei sem pecado

Con[c/s]ertos…

I.

O melancólico arrastar da voz
Que me escancara a face
Tentando correr ao lado dos acordes
Da guitarra neurótica que grita
Equações dadas por Deus aos macacos,
Desenha no ar parcelas imperfeitas
Do meu receoso amor por ti,
Com tantas coisas me desculpo
Das falhas no meu esquisso
O mascarado ser que se diz eu
E esboço setenta e sete motivos
Colecções de um Mestre esquizofrénico
Obcecado em aperfeiçoar a noção
De Divino e Natural em mim e em ti.


II.

Abraçado a um austero amplificador
Enxergo a tua moldura mística
E todo o discurso que ela me dá
Cria um tremor nas minhas células
Respiro o calor da turba, respiro
Tudo aquilo que me fala
A ira torna-se minha aliada
A consorte que não desejei
Voando ao meu lado e chorando
Por um futuro que nasce morto.

III.

Meu lindo pedaço de carvão
Dás-me esta sensação de vazio
Homem murmurado pelo vento,
Quero saber o que sentes quando crias
E dizer-te tudo o que vejo, sinto
Quando percorro esta tragicomédia,
O suspiro que tenho para dar
A tudo o que existe sem o fazer
À minha volta, quando tu
Beijas os lábios de um outro
E sonhas com o meu abraço
Ou com aquilo que achaste
Serem os meus braços, as minhas mãos
E esses ósculos serem os meus.


IV.

Sou demasiado cego para te ver
Pintada da dor que te dei
Porque sou rude e malfeito
Criado por um destino errante
Que às tortuosas falas do violino
Arrancou um pedaço de animal
E colou-o à minha alma
E à minha lama, à minha canção
Digo-te uma vez mais,
Ama-me, ama o homem em mim
O meu cheiro e cicatrizes.

V.

Sou a ressurreição da maçã
E do tempo que nunca foi,
Um longo sustenido amargo
Viaja na minha cama
Quente da minha pele,
Reclamando a minha sanidade
Dizendo-me ao ouvido:
Deixaste de ser tudo o que anunciaste!
Abençoado sejas, meu anjo
Que cantas a minha extinção
Dá-me espaço e dá-me massa
Reinventar-me-ei por fim
Com as tuas chicotadas acústicas.

VI.

Aleluia,
Estou destruído.
Aleluia,
Rejubilai quem me quis mal.
Aleluia…
Canta Senhor, meu Deus.
Aleluia.
Eu amo-te, sem medo,
Aleluia.

(a)deus abraços

Já dissemos adeus, voltamos a nos cumprimentar
Gritamos em vielas e em muros e em casas
Já nos renunciamos bem mais de três vezes
Mas não extinguimos este calor, esta fúria
E agora receio é que a chama estagne
E brilhe perfeita, inanimada e contente
Quero que ela grite aos zéfiros
E uive pelos cantos, em uníssono
Com a nossa inerente loucura

Sei que está em nós esta coisa
Esta partícula de Deus, este universo
Este caos perfeito e são.
Vamos correr em direcção ao mar
Lavar o mundo dos poros
E viver dias zangados e sujos
Como deveríamos, como Deus quis.
Vamos pecar, um com o outro
Um pelo outro, desafiar o imposto
Vamos beijar e lamber as feridas
Do nosso fado, vamos viver.

Dá-me a mão, sente crescer as asas
Esbarra comigo na escuridão
Anda apalpar o caminho
Sem medo de morrer
Saltemos para a fogueira
Achemos o nosso coração
E em glória, sê comigo tudo aquilo que queiras ser!

27 de Junho de 2009

O Dito

As Pessoas aparentam por aquilo que lhes falta em personalidade...

19 de Novembro de 2008

"And now, the end is near..."

'E foste!' digo eu, a fumar o meu último de muitos cigarros.
Não saíste do teu mundo! Não podias ver mais...
'Nunca mais voltarás!' ... Escapa-me isto dum ranger de dentes lamurioso.
Fiquei perplexo e chocado. Tu foste em mim um passo além...
Deste-me tanto, e fico-te eternamente agradecido...
Mas foste... e não te voltarei a ver...
Acho que deveriamos ter dançado por fim...
'Porquê?' é a minha pergunta face ao teu ódio...
Acredita que, um dia, irei casar contigo mas...
Mas tens que ver para lá do espelho...
Tens que me ver e me pensar...
Porque serei para sempre teu...
Só não vivo com um revólver encostado à nuca...
Sou verdadeiro naquilo que te dou...
E a tua mentira há-de ser para sempre maior que a minha...

Obrigado

19 de Outubro de 2008

P'ra minha irmã

I

Escuta-me com atenção
E bebe do meu coração
Abraça este teu irmão
E sente a minha Paixão

Espera enquanto puxo dum cigarro
Enquanto a mão te agarro
E às pedras do meu olhar te amarro
Antes de limpar o catarro.

Ama a minha voz
Entre lágrimas de dor atroz
Eis que sozinhos estamos nós
E voando com asas de albatroz.

II

Sê livre comigo, esta noite
Não te refreies, não pares para pensar
Não deixes que o Fado te açoite
Não existe razão para pensar

Pensas em mim como uma ilusão
Uma meta, um objectivo fugaz
Mas na realidade, sou teu irmão
E peço-te, não olhes para trás.

Vives, forte no meu peito
Somos unos, por sangue ou afinidade
Em tudo o que és, te aceito
Meu sinal de carinho e bondade.

III

Parte agora, com minha benção
Querida irmã, p'ra meu desgosto
Leva esta minha canção
Que eu não deixarei meu posto

Não esqueças meus conselhos
E vive o teu destino
Mesmo que sejamos velhos
Serei sempre teu menino

Adeus, criança, adeus
Escolhe bem teus passos
Rogarei por ti a Deus
P'ra que voltes p'ra meus braços.

Judas de Porcelana

Ei-lo, Judas de porcelana
De método e aparência
A ver se o mundo engana
Só para manter a decência

Como consegues, meu caro Judas
Viver em tal contradição?
Cantar em meio de gentes surdas
E fingir ter um coração?

Se queres escrever um memorial
Ou enforcar-te numa figueira
Fá-lo então, é teu o mal
Que ninguém te apaga a asneira

Se odeias aquele rol de prostitutas
Enuncia-me pois o motivo
De chorar lágrimas enxutas
Por um ser que já não é vivo

Quando eu morrer, Judas
Deixa-me pendurado na cruz
Poupa-me a palavras mudas
E a teu pranto, que só te reduz.

3 de Setembro de 2008

Um último beijo de despedida, meu amor

Peço-te, não que fiques
Mas que vás, querida
De teu mundo não abdiques
Segue com a tua vida

Será difícil para nós
Nova era lânguida
Sofrimento atroz
Dor soerguida

Sei que vamos conseguir
Paixão não jaz caída
Nem Distância a vai demolir
Oh minha Deusa, minha Nereida

Serei forte por ti
Manterei aberta a ferida
Olha para mim, e sorri
Princesa, bandida!

Fico sentado à espera
Rogando pela tua figura atrevida
Rasgando a minha cólera
Com mágoa de infanticida

E agora que partes, meu amor
Envolvida numa névoa mórbida
Escuta este meu clamor
Dá-me um último beijo de despedida

18 de Junho de 2008

Pedro

Ela cirandava calmamente naquele corredor do supermercado. Igual a tantos outros, onde o chão de mármore polido reflectia as pesadas luzes eléctricas e a simetria era doentia. Todo o ambiente percorria apenas o espectro das graduações de cinzento. Estranhamente, todas as embalagens estavam desprovidas de rótulo, expondo apenas a embalagem nua como se não importasse o que continham, apenas tinham um papel a cumprir nas prateleiras de alumínio. Mas para ela, tudo parecia natural. Com a indiferença da rotina, continuava a avaliar corpos de plástico descaracterizados e a deixá-los cair dentro do carrinho de compras meio vazio.

Quando quis avançar para avaliar as oportunidades seguintes, embateu no nada. Opunha-se a ela e aos contornos agressivos do carrinho, uma força que a não deixava avançar. Era como se um enorme vidro ali estivesse. E embora ela pudesse ver o infindável corredor, não podia seguir caminho. Abandonou o veículo metálico e foi sentir a inexplicável parede que a aprisionava naquele templo de consumismo. Empurrou o nada com toda a energia que tinha no seu quase cadavérico corpo. A sua esguia figura vestida de negro contorceu-se de força e incredulidade. Recuou uns passos, de boca aberta e olhar vazio e tentou acalmar-se. Seguiu, de passo apertado, até à encruzilhada que os corredores formavam. A mesma força. A mesma prisão que só lhe permitia ver um sem-fim de outros dédalos de produtos alvos e sem nome. Apavorada, correu para o lado oposto. O mesmo. E ela empurrou. E ela lutou e esmurrou.

*

Passadas muitas horas, ela estava de costas lançadas contra o metal das estantes. Tinha as mãos na cabeça. Os dedos enterrados na cabeleira ruiva, como se pudesse assim ordenhar uma explicação do seu cérebro atónito. Saído do nada, materializou-se no corredor, um homem. Vestia um fato cinzento, quase desaparecendo no fundo irreal. Ela olhou para o homem como se não acreditasse que ele estava ali. Ele, sem reparar na presença dela, apanhou uma garrafa que ela fizera cair e pô-la na prateleira, sendo o seu gesto tão natural e fluido que fazia parecer que ele podia ver mais além da alvura do objecto. Ajeitou a gravata cinzenta, que pouco destoava da camisa branca e por fim viu-a, na sua pose desesperada e com o seu corpo esguio. Ele sorriu e aproximou-se dela com uma passada confiante. Ela estancou o olhar nele e, lentamente, ergueu-se nas suas quebradiças mas suaves pernas. Perguntou-lhe ‘Como é que está aqui?’, ao que ele respondeu ‘Normalmente, andei até aqui!’
‘Mas, porquê que eu não consigo passar?’
‘Ah, já lá vamos.’ disse o homem, com uma respiração mais pesada.
‘Quem é você? Estou a sonhar? O que se passa aqui?’
‘Eu sou a pessoa encarregue de responder objectivamente. Pode chamar-me Pedro!’ disse ele, com os olhos fixos nos mamilos espetados contra a camisola negra dela.
‘OK Pedro’ ela respondeu timidamente, ‘estou a enlouquecer?’
‘Seguramente que não!’
‘Então porque não consigo sair daqui?’
‘Creio que essa pergunta tem que perguntar a si mesma!’
‘Bem, essa reposta de objectivo não teve nada’ pensou ela, e avançou para o homem alto que estava à sua frente.
Ele virou-lhe as costas e afastou-se dela. Parou tão subitamente como arrancara, e abriu os braços longos. Perguntou-lhe ‘Você sabe que o medo é uma barreira que impomos a nós próprios, não sabe?’
‘Presumo que sim…’
‘E o que é a rotina senão um assentar confortável face a um mundo de alternativas desconhecidas?’ disse Pedro de costas ainda voltadas como se não esperasse resposta ou não se importasse pelo que ela teria a dizer. ‘E é sabido que,’ continuou ‘o ser humano teme o desconhecido. Assim, a rotina apresenta-se como uma espécie de escudo protector que nos resguarda de uma panóplia de escolhas infindáveis e insondáveis. E é aí que a sociedade moderna se esconde. Na rotina. Pois o medo é o nosso verdadeiro e ultimo predador.’
‘Mas o medo também serve para nos pôr num estado de alerta que muita vezes nos pode salvar a vida ou pelo menos, a integridade tanto física como emocional.’
‘Só que quando esse medo é irracional, torna-se numa doença incapacitante.’disse, vitorioso.
Ela avançou furiosamente até ele, agarrou-o pelo ombro, virou-o e encarou-o. Os traços finos da sua cara enegreceram como se mostrasse a impaciência da sua mente. Ele, ainda a sorrir, olhou-a nos olhos e fechou os lábios grossos. Ela enterrou os dedos no braço dele. Ele não se moveu. Apenas erguia o seu longo corpo acima do dela, numa proximidade que lhe permitiu sentir o cheiro adocicado do perfume dela.
‘Pedro, isto é tudo muito bonito mas porque raio não consigo sair daqui?’
Ele, desapontado, fechou os olhos e ,sem esforço aparente, soltou-se do desespero dela.
‘Creio que não posso ajudá-la mais!’
E calmamente, Pedro desapareceu nas encruzilhadas do supermercado.

*


Uma espécie de instinto de sobrevivência apoderou-se da mente dela, se é que assim se pode chamar a um frenesim insano. A sombra que era o seu cabelo esvoaçava furiosamente devido aos movimentos agressivos do quebradiço pescoço. Pedro havia-a abandonado há umas horas. Com uma energia que o seu corpo franzino não poderia possuir, ela agarrou no carrinho de compras e correu pelo corredor em direcção à aprisionante e misteriosa força que a encarcerava ali. Ela pretendia usar o carrinho como uma espécie de aríete metafísico. Uma arma mágica de metal soldado. Corria tão depressa que o vento da deslocação lhe trazia lágrimas aos olhos. O fluxo de liquido era tão intenso que ela encerrou as pálpebras. E foi então que sentiu. O embate. De olhos ainda fechados pensou ‘Merda, não funcionou!’
Quando abriu os olhos, tudo era diferente. Estava sentada dentro do seu automóvel e tinha tido um pequeno acidente. Batera num passeio. Perscrutou freneticamente o carro com o olhar. Nada de extraordinário. Dados felpudos pendentes do retrovisor, mala no banco de passageiro, três sacos de compras no banco de trás. Mordeu o lábio, em dúvida. Reprimiu o sucedido nas profundezas da própria mente e dirigiu-se para casa.

*

Chegou a casa e foi imediatamente para a casa de banho. Tirou as roupas do seu corpo suado e meteu-se na banheira. Tremia descontroladamente. A água quente acariciou-lhe o corpo, qual amante esquecido. A mente dela vagueou até ao triste pensamento de que já não tinha sexo há mais de seis meses. Respirou os fantasmagóricos vapores quentes e deixou o coração voltar a uma batida saudável. Concluiu que tudo aquilo tinha sido um sonho, uma fantasia acordada devido ao facto de não descansar o suficiente. Terminou o duche e agarrou numa toalha roxa, a sua cor favorita, para tapar a cara deixando escapar um longo suspiro. Tudo estava bem. A casa continuava na sua solidão, com as suas paredes alvas pontuadas somente com dois quadros e algumas fotografias emolduradas. Podia agora voltar à sua rotina. Ligar a televisão e ver a novela. Mas, de súbito, ao erguer a cabeça lá estava ele. Vulto cinzento. Pedro. De cigarro na mão e a sorrir. Ela gritou. Fechou os olhos. Quando os reabriu, o vazio da sua casa estava de volta. Ela gritou. Sabia-o agora. Estava louca. Correu até a cozinha. Abriu e revoltou as gavetas. Procurava uma coisa. Uma faca. Quando a encontrou, precipitou-se novamente para a casa de banho. O olhar, simultaneamente assustado e assustador concentrou-se na torneira. Encheu a banheira. Mergulhou o fino corpo na água morna. E fê-lo, abrindo sulcos oblíquos nos braços delgados. Fechou os olhos. Pedro estava lá, sentado na sanita a olhar para o corpo desnudo dela. Ela nem se apercebeu. Morreu. E Pedro, simplesmente desapareceu.

26 de Maio de 2008

Memorial

Para F. P.

Vidro estilhaçado
No chão do meu quarto
Reminiscências coloridas
Da vida monocromática
Dum ser obscuro
Cristo corpóreo e invertido
No meu coração quente
Invernoso habitáculo
Das minhas sensações
Um querido Oriente
Orgulhoso e pútrido
Onde a mente, minha mente
Mente a ela própria, mente
Que pensa e mente
Quando julga que a mente
Sabe que é mente!

Ah, e o vidro corta
E o meu sangue aquece
A pele e o peito
Como o espírito
Regozija com a visão
Da carne putrefacta
Ui, vermelha e verde
Carne, músculo, fluido
Pintando as paredes...
Belo quadro, não achas?

21 de Maio de 2008

Luscúria

Dedilha a minha canção
No teu corpo incandescente

Tenta-me com o teu vazio
Vulcão aberto em prazer
Onde eu quero enfiar a língua

Saborear a tua fome
Pulsar e respirar

Fonte inodora de dor vermelha
Ferida resplandecente
Deleita-me com a tua força
Incorpora-te com o meu ser

Canta com o meu arfar
Inala a minha respiração

Envolve-me com a tua boca
Sente o meu gosto

A perdição da tua pele

E inebriado pelo teu suor
Acabo!

20 de Maio de 2008

Tenho a vida feito em pedaços.
Tudo aquilo que outrora alcancei
Não foram glórias, mas fracassos...
Tal como as pessoas que amei!

Estou neste bar, agarrado ao whisky
Enquanto vos conto a minha estória.
Se me perguntarem o que faço aqui
Digo: "Apago-me da memória!"

Estou descomposto no meu fato de tweed
A alma vai mal, que tal um charro?
Preciso de acelerar, se calhar um speed...
Melhor ainda seria um acidente de carro!

Privado de mulher e filhos,
Vivendo uma depressão
Que só me traz sarilhos
E me arrasta para o caixão!

Depois de tudo o que passei
Digo-vos, não há Deus Salvador...
Não aquele contra quem pequei...
Há apenas a penosa e omnipresente dor!

14 de Maio de 2008

Assassino

Perdoe, Senhor a minha audácia
Mas tomei-o por assombração
Sente-se comigo à sombra daquela acácia
E conte-me suas estórias de paixão

Desculpar-me-á, Senhora mas não!
Só conto como meu amor enterrei
Debaixo de sete palmos de chão
E como nunca mais amarei...

Que infortunas se abateram
Sobre vós, cavalheiro?
Que feitiço vos leram?
Mas conte sua história primeiro!

Ninguém neste mundo, é de confiança
Nem o foi minha cadavérica amada
Amei-a com a inocência duma criança
Mas ela não esperou para me dar a estocada

Tomando-me por estúpido
Fazia intenção de me deixar
Mas com o noivado rompido
Ela já não precisava de respirar...

Coroei a minha vida de carmesim
Com o sangue do meu amor
Que me resta agora a mim
Se não uma eterna e dominante dor?

Olhe meu Senhor, tem-me aqui
Descanse que nunca o deixarei
Tratarei dos seus fatos de caqui
E para todo o sempre amá-lo-ei

Não lhe preocupa viver a vida
Ao lado de um assassino?
Pois não creio, minha querida
Que não tenha um receio pequenino!

Não , não tenho nada parecido
Aliás até é algo que me fascina
Você ser tão romântico, meu querido
E mudar a pulso a sua sina

13 de Maio de 2008

Manifesto Anti-Acordo Ortográfico

"Morra o Dantas, morra! Pim!"


Que horrores e massacres na minha língua
Judarias e mutações levam políticos a cabo
Para a colónia vencer o colonizador?
Juntam-se empoeiradas múmias que idolatrizaram
A caipirinha e o samba e por ninharias
Se sacrifica uma cultura...
Morra o Acordo, morra! Pim!
Se o futuro é brasileiróide, então que se junte a mim o país numa tal colecção de manguitos que cem anos não os apagarão!
Morra!
Não precisamos de fatos mas de factos, meus amigos!
Diplomatas filhos de cadelas, enfiem o tratado num certo sitio...
Morra o Acordo, morra! Pim!
E querem convencer-me de que isto é progresso?
Eu que quero poesia, não quero isto!
Se isto é português, então eu quero ser espanhol.
Morte ao acordo, morra! Foda-se! Desculpem... Deverei escrever fodasse?

6 de Maio de 2008

Eu, um vampiro...

Ajoelhado frente a um pórtico
Maldizendo os Enamorados
Desprezo o falo icónico
Da Paixão e dos Dependurados

A Noite vai morosa
Os Passos não são Meus
Sinto a fragrâcia merdosa
Dos Deuses que são teus

Minha Divindade é carmesim
Corre livre em canais fechados
Roubo porque não existe em mim
Mas o roubo é redenção de teus pecados

Sou um velho Vampiro
E o teu sangue desejo
Se não mo deres, tiro
E a tua morte prevejo

Calcorreio a Baixa Lisboeta
Seguindo-te o rasto, sem perdê-lo
Prefiro não consumir aquele perneta
Mas a ti, com teu ar de modelo

Excita-me o teu olhar vazio
Depois de te ter chupado
Quem te mandou andares com o cio
E saciares comigo teu pecado?

30 de Abril de 2008

...um [decrépito] bordel...

Entrei num decrépito bordel
Luxúria corria-me nas veias
Tinha sete putas num cordel
Que lembravam flores feias

Paguei para ser enojado
Para ser dono do mundo
Ser fodido e ludibriado
Respirando sexo imundo

Estas mulheres não sabem
Pelo menos não deveriam saber
Aquilo que eu faço tão bem
Matar putas e seu sangue beber

Mas a minha sede canibal
Foi seguramente refreada
Quando a vi, perfeita, a Tal
A Mulher deliciosa e decotada

Perguntei de imediato:
Quem é esta criatura?
Responderam 'de facto,
Nunca a vi nesta amargura...'

Desejei-a para mim naquele instante
Levá-la para um canto ignorado
E ser apanhado em flagrante
Pelo chulo a quem ela chama 'namorado'

'É virgem?' perguntei, a Ela
A resposta ' isso depende da fantasia'
'Fazes o que te pedir, até usar uma sela?'
'Tudo, amor, tudo aquilo que a tua mulher não faria'

29 de Abril de 2008

Lilith

Mulher supra-demoniaca
Inferno de carne e osso
Amas à força da faca
Atiras-me para o fosso

Se meu nome é Tentação
Palavras para o teu não servem
Meu peito sem coração
É tua nova moradia, vem!

Usas-me como a um brinquedo
Para a tua luxúria matar
A todos teus desejos cedo
Peço p'ra isto acabar!

Sei que me matarás de paixão
Por ti, no Inferno arderei
A minha alma entrará em combustão
E nunca mais amor tão intenso sentirei!

28 de Março de 2008

Sílvia Silicone

Sílvia Silicone era uma rapariga
Que se sentia muito vazia.
Invejava as mamas da amiga
Que grandes decotes vestia.

Um dia quando estava com o período, decidiu:
“Vou pôr umas grandas mamas de silicone,
Ela vai ter tanta inveja, puta que a pariu,
Graças aos rapazes que não me vão largar o telefone.”

Foi o que a Sílvia fez, motivada pela inveja.
Disse ao médico que queria o maior tamanho,
Ao que ele, cordialmente respondeu: “Assim seja!”
Pô-la a dormir e ela sonhou com um grande rebanho.

Quando do seu sonho, ela finalmente acordou,
Tinha um peito tão grande que nem via os pés.
Ficou tão contente com aquilo que até chorou.
Disse: “Nem Deus montanhas tão grandes fez!”

Curada, saiu à rua e bem decotada…
Toda a gente virava o pescoço para olhar.
Muitos a desejavam para sua namorada
Mas era apenas a luxúria a falar.

Certa vez sentiu que já não tinha o maior peito.
Foi ao consultório outra vez, falar com o cirurgião
Que lhe disse: “Como desejar, assim será feito!”
Tudo pronto, anestesia e lá começou a operação!

Saiu com dois monstros colossais.
Agora, as pessoas desviavam o olhar.
Tinha mamilos grandes como dedais
E o peso delas fazia-lhe as costas arquear.

Meteu-se num avião para fugir
Lembrou-se da sua decisão e sorriu
Mas para muito longe não havia de ir…
Mal o avião descolou, o seu peito explodiu!

Cidade-Prisão

Existe um sítio no mundo
Tão ruim e cheio de devassidão,
Um lugar feio e imundo
A que eu chamo Cidade-Prisão

Passando o seu portão
Sente-se a maldade no ar.
Há sempre um qualquer cabrão
Que da minha vida quer falar.

Lá naquele buraco esquecido,
Não existe qualquer Perdão.
Erra e estarás perdido
Nas ruelas da Cidade-prisão.

Mas não são os guardas
Aqueles que deves recear...
São os reclusos que, mesmo sem fardas,
Por dentro, te querem matar!

Como é possível viver na Cidade-Prisão?
Andar amarrado, sem saber, pela mão
E pensar ser livre nas ruas de Portimão?
Eu digo que não é possível, não...

26 de Março de 2008

Solitário é amar

Pontapeio a tua cabeça
Esmurro-te os lados
Não há em ti nada que me peça
Perdão pelos teus pecados

Sou teu juiz, teu carrasco
Dito a tua pena e tortura
Acaricio a tua pele de damasco
Teu amor em mim perdura

Morre, minha grande puta
Nunca te esquecerei
Fizeste de meu coração, gruta
E sozinho, partirei

12 de Março de 2008

Ébrio

Ardi nos bares da vida
Bebi da Sarjeta
Pontapeei gente com SIDA
Tinha por amiga, a punheta

Tudo o que me sai é asco
Sou um animal
Tenho um feto num frasco
Sou o próprio Mal

Criei porcos como filhos
Almocei ratazanas
Só arranjei sarilhos
À pala das bezanas

Chamei nomes a padres
Gritei palavrões bem alto
Fodi muitas madres
E parti do meu sapato, o salto!

10 de Março de 2008

O Empregado de Balcão

Ele era um empregado de balcão
Numa qualquer mercearia.
A sua vida era repleta de solidão
À excepção do gato e duma tia.

Era educado, dizia sempre "Bom-dia"
Mas sentia-se a falta de emoção
Cada vez que ele nos servia
E nos dava, friamente, o talão.

Mas acabado o expediente
E rumado ao lar, doce lar
Ele, como se não mais fosse doente
Punha a imaginação a trabalhar.

Descia até à cave,
Vestia um fato de kevlar,
E imaginava-se numa nave
Que o levava para fora do sistema solar.

Durante horas e horas ele ficava
Em planetas desconhecidos, a explorar.
Mas da sua viagem acordava
Quando o gato desatava a miar.

Digam o que quiserem.
Que ele é pueril ou louco
Que a ele não ofendem
Porque ao menos, ele ainda sorri um pouco.

Se é esta pequena fantasia
Que lhe permite estar ao balcão
E ainda desejar um "bom-dia"
Então que ele continue na sua ilusão.

Nunca serei capaz de o julgar.
Quem me dera ter essa imaginação.
Ser capaz de, na minha mente, voar
E ser um bom empregado de balcão.

9 de Março de 2008

Pecado (i)mortal

O Vento grita como virgens na fogueira
Enquanto os meus dedos dançam mortalmente
Com o fio de fumo do meu cigarro
Enquanto te escrevo, Helena.
Cordão cinzento e trémulo de vicío
Que inflama o meu ardor por ti.

Abro a janela ao munso sonolento.
Perscuto a morbidez das ruas desertas.
Imagino-te correndo nelas.
E passa, pestanejo, passou...

Quero escrever três rimas.
Dedicá-las-ei a ti.
Mas estas mãos ociosas recusam a caneta.
Mordo-as com toda a força,
Grito desesperado e praguejo.

Sabes as coisas que te gostaria de dizer
E simplesmente não consigo?
Tudo aquilo que quando fecho os olhos
Cresce livremente na minha imaginação...

A ineficácia da minha eloquência
Mata-me!

8 de Março de 2008

Dança de dois corpos cubistas

Luto com todo o meu ardor
Por ti, mulher demoniaca.
Tens por prémio, meu amor
A minha obsessão maniaca.

Entre murros e facadas,
Beijos, caricias e abraços,
De tantas mulheres amadas
Nunca me doeram tanto, teus braços

Morte aos que te querem
Punição aos traidores
Tortura aos que te ferem
Glória a meus amores

Sangro por ti com prazer,
Um orgulhoso sorriso nos meus lábios
Não me prives de te ver,
Não fales dos antigos sábios!

Peço-te, luta comigo
Arde na minha fogueira
Dança, mais do que amigo
Vem sentar-te à minha beira

Aquilo que quero, nada mais
És tu, teu corpo, teu olhar,
Mas para longe de mim vais
E já nada tenho a desejar!

7 de Março de 2008

Corpórea

Eu não existo.
Sou este papel.
Sou esta tinta.
Estas palavras
Uma ideia.
Mente humana
E nada mais.
Eu não existo
Sou um olhar
Um suspiro
Um vazio
...
Uma dança de caneta
Eu estou aqui,
Escrito.
Olha para mim

Transparente
Uma ideia

6 de Março de 2008

A Menina que Chorava Sangue pt. 2

Mudou assim a história
Da rapariga, o seu amante.
Do cheiro já não há memória
Graças a tanto desinfectante.

Se de emoção ela chorava
Ele, nervoso de a ver, suava
E ao lhe dar um abraço reconfortante
Limpava-lhe o sangue do semblante.

O mundo continuou na sua agitação
Mas a rapariga tornou-se verdadeiramente feliz
Quando entregou o seu coração
Àquele rapaz que em condição condiz.

5 de Março de 2008

Cadaveria

Esqueleto poético em movimento
Descendente de cometa inabalado
P'la atmosfera incandescente e azul
Oceânica e louca como o amanhã
Cruel e perverso como sou
Eu dançando e cantando da tua cara
Ferida numa luta p'lo orvalho
Refrescante e doloroso para o ser
Humano que destrói nas mãos
Fracas de carne, tudo o que vê
Pintado pelas paredes dum quarto
Revestido de almofadas terapêuticas
Curas e doçuras através de comprimidos
Sorridentes como dragões do Nilo
Corrente e morto como o meu olhar
Moribundo e lânguido, de sorriso amarelo
Pútrido de felicidade ao te ver
Puta que me rouba até a carne
Vermelha, pulsante, apetitosa veste
Quente e comestível que me satisfaz
Plenamente contido numa caixa craniana
Dura e nojenta como Deus a fez
Corrupta de pensamentos erróneos.

4 de Março de 2008

A Menina que Chorava Sangue pt. 1

Era uma vez uma menina
Que ao invés de lágrimas salgadas
Chorava, por sua triste sina,
Lágrimas de sangue, encarnadas.

Havia quem a dissesse Santa
Ou que ela fazia bruxaria.
Os Padres, achando aquilo trapaçaria
Só lhe gritavam "Saia daqui, sua anta!"

A rapariga não se importava,
Ignorava toda aquela comoção.
Aquilo que realmente a incomodava
Era o cheiro a putrefacção.

Pois quando o sangue secava,
Depois dela choramingar,
O odor que ficava
Chegava para os cães enxotar.

Nada mais a fazia infeliz
Apenas aquela fragrância repugnante,
Mas tudo mudou ao conhecer outro petiz:
O Rapaz que suava desinfectante!