I.
O melancólico arrastar da voz
Que me escancara a face
Tentando correr ao lado dos acordes
Da guitarra neurótica que grita
Equações dadas por Deus aos macacos,
Desenha no ar parcelas imperfeitas
Do meu receoso amor por ti,
Com tantas coisas me desculpo
Das falhas no meu esquisso
O mascarado ser que se diz eu
E esboço setenta e sete motivos
Colecções de um Mestre esquizofrénico
Obcecado em aperfeiçoar a noção
De Divino e Natural em mim e em ti.
II.
Abraçado a um austero amplificador
Enxergo a tua moldura mística
E todo o discurso que ela me dá
Cria um tremor nas minhas células
Respiro o calor da turba, respiro
Tudo aquilo que me fala
A ira torna-se minha aliada
A consorte que não desejei
Voando ao meu lado e chorando
Por um futuro que nasce morto.
III.
Meu lindo pedaço de carvão
Dás-me esta sensação de vazio
Homem murmurado pelo vento,
Quero saber o que sentes quando crias
E dizer-te tudo o que vejo, sinto
Quando percorro esta tragicomédia,
O suspiro que tenho para dar
A tudo o que existe sem o fazer
À minha volta, quando tu
Beijas os lábios de um outro
E sonhas com o meu abraço
Ou com aquilo que achaste
Serem os meus braços, as minhas mãos
E esses ósculos serem os meus.
IV.
Sou demasiado cego para te ver
Pintada da dor que te dei
Porque sou rude e malfeito
Criado por um destino errante
Que às tortuosas falas do violino
Arrancou um pedaço de animal
E colou-o à minha alma
E à minha lama, à minha canção
Digo-te uma vez mais,
Ama-me, ama o homem em mim
O meu cheiro e cicatrizes.
V.
Sou a ressurreição da maçã
E do tempo que nunca foi,
Um longo sustenido amargo
Viaja na minha cama
Quente da minha pele,
Reclamando a minha sanidade
Dizendo-me ao ouvido:
Deixaste de ser tudo o que anunciaste!
Abençoado sejas, meu anjo
Que cantas a minha extinção
Dá-me espaço e dá-me massa
Reinventar-me-ei por fim
Com as tuas chicotadas acústicas.
VI.
Aleluia,
Estou destruído.
Aleluia,
Rejubilai quem me quis mal.
Aleluia…
Canta Senhor, meu Deus.
Aleluia.
Eu amo-te, sem medo,
Aleluia.